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Várzea é tradição

Neste mês, trago para você leitor um  texto que eu escrevi para um concurso cultural em 2024, do Museu do Futebol!


Perto de casa, logo cedo, já ouvia a gritaria que vinha lá do verdinho (apelido carinhoso do campinho): "Pega a bola! Não valeu! Foi falta!" Sábado de manhã é sempre assim, a molecada prá lá e pra cá atrás da bola, meninas e meninos, todos juntos e misturados. 


Mas, nesta tarde, quem se prepara para a final do campeonato de várzea da Zona Sul de São Paulo são dois times de tradição: ESTRELA FUTEBOL CLUBE versus AMIGOS ALCEU! Eu não perco um jogo do AMIGOS, afinal moro ao lado do campinho e o Alceu é meu avô!


O time dos Amigos do Alceu começou muito antes d’eu nascer, na verdade, nem meu pai era nascido! A minha avó ainda namorava meu avô Alceu, que trabalhava na fábrica de biscoitos, do outro lado da Avenida e foi lá que tudo começou. 


Os funcionários da fábrica se juntavam às quartas e sábados para bater uma bola, outros trabalhadores da redondeza foram se juntando e, como meu avô era conhecido, alguém falava: "Vou lá no verdinho jogar com os Amigos do Alceu" e assim, depois de algum tempo, virou o nome oficial do time.


Foto meramente ilustrativa criada pela IA.
Foto meramente ilustrativa criada pela IA.

O tempo passou e os Amigos do Alceu se tornaram uma tradição! Suas cores vermelho, branco e preto coloriam as paredes dos muros das casas que ficavam perto da sede do clube: a casa da minha avó! Mais precisamente um quarto que eles tinham nos fundos.


O espaço foi cuidadosamente preparado pelo meu avô, que pintou as paredes, colocou prateleiras e armários para guardar documentos, fotos e medalhas e troféus que o Amigos do Alceu começou a colecionar!


As esposas dos jogadores se tornaram amigas, tiveram filhos que cresceram batendo bola naquele terrão, passando de geração em geração o amor pelo time e mesmo quem nem jogava ia lá para o campinho, acompanhar o Amigos do Alceu.


E hoje, em pleno sábado ensolarado, no mesmo horário da final da UEFA Champions League entre Borussia Dortmund e Real Madrid, é também a final do campeonato de várzea da Zona Sul paulistana! 


No boteco da esquina, meia dúzia jogando dominó e tomando uma branquinha, a tv passando o pré-jogo da grande final no tradicional estádio de Wembley na Inglaterra, mas o pessoal do bairro estava mesmo interessado no que ia acontecer lá no verdinho!


A vizinhança estava animadíssima com mais essa final! As famílias dos jogadores e ex-jogadores já se faziam presentes: netos, primos, amigos e vizinhos, não se falava em outra coisa, a não ser no jogo contra o Estrela, afinal era o nosso maior adversário.



Eu logo fui para a arquibancada, perto do banco de reservas, encontrar meus vizinhos, amigos, primas, tias e muita gente que fazia um tempinho que não via! Afinal de contas, o futebol de várzea é uma grande família!


O meu pai e os meus tios estavam concentrados com os jogadores, pois fazem parte da comissão técnica. O meu avô Alceu, com seus 85 anos, estava lá, firme e forte, no lugar reservado para ele! 


O jogo estava para começar e rolava um clima amistoso entre as torcidas. Apesar da rivalidade, a atmosfera do campinho estava vibrante como sempre, a bateria inspirada e observando toda aquela movimentação, eu pensei: que loucura viver tudo isso nesse campinho que começou com os amigos do meu avô! 


Viva a várzea! 


A bola rolou, a defesa bobeou, o atacante Perninha do Estrela foi derrubado perto da área e logo aos 5 minutos de jogo, 1x0 Estrela. 


Aos 25 minutos, os Amigos em uma linda jogada pela direita empata. Dá-lhe correria, chute, escanteio, falta, cartão amarelo para o meu pai que não estava se aguentando no banco de reservas, mas nada adiantou: o primeiro tempo terminou tudo igual. 


No intervalo, a torcida não parava um minuto, bandeirão subindo, uns indo comprar mais cerveja, outros pegando um churrasquinho. O campinho estava agitado como nunca, e não que eu não tivesse visto ele assim antes, mas hoje a atmosfera estava diferente de tudo que eu já havia presenciado ali.


O jogo recomeça: agora é tudo ou nada! O Estrela pressiona, mas o Amigos do Alceu reage, a defesa faz um lindo lançamento e goooooooool! Viramos o placar!


A torcida vai à loucura, canta ainda mais alto, incentiva, xinga o juiz, e mais 5 minutos dá-lhe mais um dos Amigos! Era inacreditável o que eu estava vendo: o time estava com outro pique, com garra para levar mais essa!


O Estrela não deixava se abater, lutou até fazer mais um gol. O meu avô não acreditava no que estava acontecendo! O clima esquentou, as torcidas angustiadas, o Estrela começou a ficar exausto com todo aquele calor e aquela correria. Foi aí que a estrela do nosso artilheiro brilhou e num chute de fora da área deu uma sapatada que a bola foi parar no fundo do gol! 



No último minuto o time de azul quase converteu mais um, mas logo o juiz apitou e terminou 4x2. Um chocolate pra cima do Estrela!


Teve festa na arquibancada! Teve fogos! Teve banho de cerveja! Teve comemoração depois do jogo! Teve jogador famoso disfarçado, só pra ver o Amigos do Alceu jogar! Lavamos a alma e recuperamos a taça de maior campeão da várzea da cidade de São Paulo!


Vanessa Bortoletto é publicitária formada na Universidade Metodista de São Paulo, pesquisadora e escritora apaixonada por esportes e pelas histórias encantadoras que esse universo proporciona.


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