Várzea é tradição
- fffciacontato
- 26 de mai.
- 4 min de leitura
Neste mês, trago para você leitor um texto que eu escrevi para um concurso cultural em 2024, do Museu do Futebol!
Perto de casa, logo cedo, já ouvia a gritaria que vinha lá do verdinho (apelido carinhoso do campinho): "Pega a bola! Não valeu! Foi falta!" Sábado de manhã é sempre assim, a molecada prá lá e pra cá atrás da bola, meninas e meninos, todos juntos e misturados.
Mas, nesta tarde, quem se prepara para a final do campeonato de várzea da Zona Sul de São Paulo são dois times de tradição: ESTRELA FUTEBOL CLUBE versus AMIGOS ALCEU! Eu não perco um jogo do AMIGOS, afinal moro ao lado do campinho e o Alceu é meu avô!
O time dos Amigos do Alceu começou muito antes d’eu nascer, na verdade, nem meu pai era nascido! A minha avó ainda namorava meu avô Alceu, que trabalhava na fábrica de biscoitos, do outro lado da Avenida e foi lá que tudo começou.
Os funcionários da fábrica se juntavam às quartas e sábados para bater uma bola, outros trabalhadores da redondeza foram se juntando e, como meu avô era conhecido, alguém falava: "Vou lá no verdinho jogar com os Amigos do Alceu" e assim, depois de algum tempo, virou o nome oficial do time.

O tempo passou e os Amigos do Alceu se tornaram uma tradição! Suas cores vermelho, branco e preto coloriam as paredes dos muros das casas que ficavam perto da sede do clube: a casa da minha avó! Mais precisamente um quarto que eles tinham nos fundos.
O espaço foi cuidadosamente preparado pelo meu avô, que pintou as paredes, colocou prateleiras e armários para guardar documentos, fotos e medalhas e troféus que o Amigos do Alceu começou a colecionar!
As esposas dos jogadores se tornaram amigas, tiveram filhos que cresceram batendo bola naquele terrão, passando de geração em geração o amor pelo time e mesmo quem nem jogava ia lá para o campinho, acompanhar o Amigos do Alceu.
E hoje, em pleno sábado ensolarado, no mesmo horário da final da UEFA Champions League entre Borussia Dortmund e Real Madrid, é também a final do campeonato de várzea da Zona Sul paulistana!
No boteco da esquina, meia dúzia jogando dominó e tomando uma branquinha, a tv passando o pré-jogo da grande final no tradicional estádio de Wembley na Inglaterra, mas o pessoal do bairro estava mesmo interessado no que ia acontecer lá no verdinho!
A vizinhança estava animadíssima com mais essa final! As famílias dos jogadores e ex-jogadores já se faziam presentes: netos, primos, amigos e vizinhos, não se falava em outra coisa, a não ser no jogo contra o Estrela, afinal era o nosso maior adversário.

Eu logo fui para a arquibancada, perto do banco de reservas, encontrar meus vizinhos, amigos, primas, tias e muita gente que fazia um tempinho que não via! Afinal de contas, o futebol de várzea é uma grande família!
O meu pai e os meus tios estavam concentrados com os jogadores, pois fazem parte da comissão técnica. O meu avô Alceu, com seus 85 anos, estava lá, firme e forte, no lugar reservado para ele!
O jogo estava para começar e rolava um clima amistoso entre as torcidas. Apesar da rivalidade, a atmosfera do campinho estava vibrante como sempre, a bateria inspirada e observando toda aquela movimentação, eu pensei: que loucura viver tudo isso nesse campinho que começou com os amigos do meu avô!
Viva a várzea!
A bola rolou, a defesa bobeou, o atacante Perninha do Estrela foi derrubado perto da área e logo aos 5 minutos de jogo, 1x0 Estrela.
Aos 25 minutos, os Amigos em uma linda jogada pela direita empata. Dá-lhe correria, chute, escanteio, falta, cartão amarelo para o meu pai que não estava se aguentando no banco de reservas, mas nada adiantou: o primeiro tempo terminou tudo igual.
No intervalo, a torcida não parava um minuto, bandeirão subindo, uns indo comprar mais cerveja, outros pegando um churrasquinho. O campinho estava agitado como nunca, e não que eu não tivesse visto ele assim antes, mas hoje a atmosfera estava diferente de tudo que eu já havia presenciado ali.
O jogo recomeça: agora é tudo ou nada! O Estrela pressiona, mas o Amigos do Alceu reage, a defesa faz um lindo lançamento e goooooooool! Viramos o placar!
A torcida vai à loucura, canta ainda mais alto, incentiva, xinga o juiz, e mais 5 minutos dá-lhe mais um dos Amigos! Era inacreditável o que eu estava vendo: o time estava com outro pique, com garra para levar mais essa!
O Estrela não deixava se abater, lutou até fazer mais um gol. O meu avô não acreditava no que estava acontecendo! O clima esquentou, as torcidas angustiadas, o Estrela começou a ficar exausto com todo aquele calor e aquela correria. Foi aí que a estrela do nosso artilheiro brilhou e num chute de fora da área deu uma sapatada que a bola foi parar no fundo do gol!

No último minuto o time de azul quase converteu mais um, mas logo o juiz apitou e terminou 4x2. Um chocolate pra cima do Estrela!
Teve festa na arquibancada! Teve fogos! Teve banho de cerveja! Teve comemoração depois do jogo! Teve jogador famoso disfarçado, só pra ver o Amigos do Alceu jogar! Lavamos a alma e recuperamos a taça de maior campeão da várzea da cidade de São Paulo!
Vanessa Bortoletto é publicitária formada na Universidade Metodista de São Paulo, pesquisadora e escritora apaixonada por esportes e pelas histórias encantadoras que esse universo proporciona.




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